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"China precisa de ajuda"

China - Europe
Não é muito frequente, mas surge sempre um ou outro artigo a sugerir que "China precisa de ajuda". Desta vez o artigo vinha no Financial Times e surrealmente tenta convencer os leitores sobre a afirmação acima referida. E que melhor sítio para começar senão sobre a moeda chinesa. 

Os que estão a par da situação decerto já ouviram falar sobre a pressão sob Renminbi (moeda chinesa). Actualmente China pratica um regime de câmbio flutuante mas dentro de uma banda, ou seja, a taxa do câmbio pode flutuar deste que esteja entre os limites máximos e mínimos estabelecidos. 

A afirmação no artigo, tal como a maioria dos governos ocidentais, é que China deveria deixar apreciar a sua moeda, não só para o bem do mundo mas também para si próprio. Uma maneira de verificar a competitividade chinesa é comparar os preços chineses com os dos outros países, tendo em conta de que os países mais ricos tem preços mais elevados. Se os preços no país forem menores aos que se espera dado o nível de vida, então a moeda está subvalorizada. Este é um dos métodos da paridade do poder de compra para a avaliação da moeda. Apesar de Renminbi já ter apreciado 30 por cento em relação ao dólar americano deste 2005, segundo os cálculos do autor do artigo a moeda chinesa continua subvalorizado em 30 por cento em relação ao dólar americano. 

De acordo com o autor, estas medidas tomadas sobre a taxa de câmbio chinesa causa problemas de competitividade para os países desenvolvidos dado que estes são os seus principais concorrentes. "Um estudo recente de Aaditya Mattoo do Banco Mundial e Prachi Mishra de FMI revela que a taxa de câmbio chinesa tem um impacto substancial nas exportações dos países desenvolvidos, que competem directamente com a China, nos mercados do terceiro mundo. Por exemplo, uma apreciação de 10 por cento de Renminbi poderia aumentar as exportações dos concorrentes entre 2 a 6 por cento". Seguindo esta linha do pensamento o autor sugere que China precisa de reformas mas que sofre uma forte oposição doméstica a estas reformas e por isso precisa de ajuda externa para ultrapassar esta oposição. 

Bem, é verdade que estas medidas sobre o câmbio afectam os concorrentes mas o contrário também é verdade. As medidas dos concorrentes também afectam China. Não é isso mesmo que globalização significa? No mercado, o que conta são as leis da oferta e da procura, e de ambos os lados escolhem sempre o que é mais benéfico para si próprio, logo, se os países do terceiro mundo acharam que China oferecia melhores condições é normal que escolham China. Claro que se poderia dizer que o mercado precisa de ser regulamentado para não haver exagero e competir sob as mesmas bases. Mas o que são as mesmas bases? Onde estavam estas bases quando os países ocidentais já poluíram o que podiam para se desenvolverem e vem agora criticar China por querer atingir essas mesmas bases? 

De facto, essas medidas sobre Renminbi tem um custo para China, e um dos factores que se tem verificado é a inflação. Contudo, a verdade é que Ocidente está em crise e uma apreciação de Renminbi teria grandes benefícios dado que isso significaria uma economia mais competitiva, mais exportações, logo mais transferências de capital. E apesar de o mundo inteiro estar a par do facto que Ocidente está em crise ainda vem dizer que "China precisa de ajuda", no máximo entreajuda e sinceramente acredito que se tal apreciação se verificasse mesmo os países ocidentais teriam mais benefícios que China. 

Evidente que dado a Europa ser o segundo maior parceiro das exportações chinesas também é do interesse da China que Europa não esteja em estado de crise mas não é responsabilizando China por não fazer o que eles querem que o problema se vai resolver. Se tivessem dedicado mais tempo em encontrar soluções que os próprios tem mãos a medir e menos tempo a responsabilizar outros países talvez já tinham chegado a alguma conclusão sobre o que fazer em relação à crise.

Outros artigos de opinião sobre China:
Para onde caminha China?
O Fosso entre os Ricos e Pobres na China

Artigo para uso exclusivo no Site do Oriente

Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Em primeira mão, deixa-me felicitar-te pelo artigo escrito. Realmente gostei, mesmo quando a minha área não está, exactamente, conectada a esta. Antes de tudo, espanta-me que um jornal de elevada reputação como "Financial Times" tenha-se dado ao desprazer de tomar uma posição. Jornalistas de grandes empresas como o FT costumam apenas cingir-se aos factos vigentes, embora todos saibamos que a omissão de alguns e sobrevalorização de outros, tem contribuído para crescente manipulação de informação, algo que, inevitavelmente, alguma vez poderá ser controlado. Mas, prosseguindo, penso que é do conhecimento de uma grande parte que, o Financial Times está, directamente, ligado a todas e quaisquer notícias que englobam a U.E. assim como os seus associados. Neste sentido, não seria de esperar que dito jornal não transpusesse a perspectiva dos países que a constituem, mesmo quando a realidade não vai ao encontro de tal parecer. Há algum tempo, tive a oportunidade de ler um poema chinês que me foi passado por uma pessoa amiga. Havia uma parte que remetia para um pensamento que penso ser geral entre o povo sino, dizia: "我们是东亚病夫时,我们被说是黄祸/我们被预言是下一个超级大国了,我们被指是主要威胁" ("When we were the Sick Man of Asia, we were called The Yellow Peril/When we are billed to be the next Superpower, we are called The Threat"). Penso que este excerto traduz um sentimento partilhado por muitos. Os Ocidentais nunca estarão dispostos a aceitar países como a China como possíveis potências capazes de competir com eles nos seus próprios termos. Aceitar isso, seria o mesmo que dizer que fraquejaram, é dar voz a quem dizia "tu tinhas razão", e, agora, pergunto-me: quantos são capazes de o fazer?

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